O
olhar europeu sobre o mundo árabe de As
mil e uma noites.
Vera Lúcia Guedes Barbosa
(Universidade Federal de São Paulo)
Compreende-se por
etnocentrismo a perspectiva que uma determinada civilização/sociedade faz
acerca de si, colocando sua cultura e seus hábitos como referências para todas
as demais sociedades existentes. Sob esta ótica, o contato com novas culturas é
pautado pelo conflito, uma vez que se observa o novo, segundo seus próprios
valores.
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| Henri Matisse, Odaliscas |
Na
história da humanidade podem-se observar diversas ocasiões nas quais o contato
entre diferentes culturas foi marcado pelo estranhamento e conflito.
Observando, por exemplo, o período que antecede a queda do Império Romano do
Ocidente, período marcado pela invasão de povos germânicos, podemos perceber na
maneira como os romanos se referiam aos tais povos, um conflito étnico. Os
chamados povos bárbaros eram assim designados por possuírem costumes diferentes
e por não compartilharem das complexas instituições romanas. Tão forte se fez
esta perspectiva de que os germânicos eram bárbaros, que ainda hoje nas aulas
de história e em livros didáticos se fala de invasões bárbaras.
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| Odalisca, Eugene Delacroix |
Em
1704 a Europa toma conhecimento do célebre conto As mil e uma noites traduzido do árabe para o francês por Antonie
Galland. Da leitura deste conto surgirá a partir do século XIX, resultado das
expedições francesas ao Oriente Médio, uma série de pinturas de renomados
artistas, entre eles Eugène Delacroix que irá compor pinturas que buscarão
representar os costumes e hábitos da civilização árabe. Já no século XX o francês
Henri Matisse, profundamente influenciado pelo conto de As mil e uma noites irá compor uma série de obras intitulada “As Odaliscas”. Observando as pinturas
francesas produzidas no período que vai do século XVIII ao XIX e a própria
leitura do conto árabe, podemos perceber como a perspectiva que fazemos acerca
do Oriente, é por elas influenciada e marcada por uma série de
particularidades.
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| Henri Matisse, Odaliscas |
Para
o pesquisador Edward Said a visão de ser o Oriente, sobretudo o mundo
mulçumano, uma terra repleta de exotismos, haréns e magia, é nada mais que uma
construção ocidental, portanto um “orientalismo”, ou seja, uma visão
personificada que o Ocidente fez sobre o Oriente. Neste sentido, a construção
dessa visão de mundo oriental será influenciada pelo conto de As mil e uma noites ao ponto de
construir para o mundo europeu, um quadro muito fixo da mulher, da terra, do
homem árabe. Esta influência pode ser observada em clássicos do cinema como o
filme “Aladin” produzido pela Disney
e “Jeannie é um o gênio”.
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| Mulheres de Argel, Eugene Delacroix |
Estas
observações nos são importantes por permitirem a reflexão acerca da maneira
como hoje cerca de três séculos após a tradução de As mil e uma noites, esta maneira de representar o Oriente se faz
presente em nossa cultura. Por mais claro que seja a nós a inexistência de
tapetes voadores, gênios e mulheres que se tornam gazelas, tais elementos
somados ao todo da obra, contribuem na representação de um mundo oriental
exótico e pautado por extremos.



