quinta-feira, 6 de setembro de 2012


O olhar europeu sobre o mundo árabe de As mil e uma noites.

                                                                            Vera Lúcia Guedes Barbosa 

                                                                                                  (Universidade Federal de São Paulo)                                                                                     



Compreende-se por etnocentrismo a perspectiva que uma determinada civilização/sociedade faz acerca de si, colocando sua cultura e seus hábitos como referências para todas as demais sociedades existentes. Sob esta ótica, o contato com novas culturas é pautado pelo conflito, uma vez que se observa o novo, segundo seus próprios valores.
Henri Matisse, Odaliscas

            Na história da humanidade podem-se observar diversas ocasiões nas quais o contato entre diferentes culturas foi marcado pelo estranhamento e conflito. Observando, por exemplo, o período que antecede a queda do Império Romano do Ocidente, período marcado pela invasão de povos germânicos, podemos perceber na maneira como os romanos se referiam aos tais povos, um conflito étnico. Os chamados povos bárbaros eram assim designados por possuírem costumes diferentes e por não compartilharem das complexas instituições romanas. Tão forte se fez esta perspectiva de que os germânicos eram bárbaros, que ainda hoje nas aulas de história e em livros didáticos se fala de invasões bárbaras.
Odalisca, Eugene Delacroix
            Em 1704 a Europa toma conhecimento do célebre conto As mil e uma noites traduzido do árabe para o francês por Antonie Galland. Da leitura deste conto surgirá a partir do século XIX, resultado das expedições francesas ao Oriente Médio, uma série de pinturas de renomados artistas, entre eles Eugène Delacroix que irá compor pinturas que buscarão representar os costumes e hábitos da civilização árabe. Já no século XX o francês Henri Matisse, profundamente influenciado pelo conto de As mil e uma noites irá compor uma série de obras intitulada “As Odaliscas”. Observando as pinturas francesas produzidas no período que vai do século XVIII ao XIX e a própria leitura do conto árabe, podemos perceber como a perspectiva que fazemos acerca do Oriente, é por elas influenciada e marcada por uma série de particularidades.
Henri Matisse, Odaliscas

            Para o pesquisador Edward Said a visão de ser o Oriente, sobretudo o mundo mulçumano, uma terra repleta de exotismos, haréns e magia, é nada mais que uma construção ocidental, portanto um “orientalismo”, ou seja, uma visão personificada que o Ocidente fez sobre o Oriente. Neste sentido, a construção dessa visão de mundo oriental será influenciada pelo conto de As mil e uma noites ao ponto de construir para o mundo europeu, um quadro muito fixo da mulher, da terra, do homem árabe. Esta influência pode ser observada em clássicos do cinema como o filme “Aladin” produzido pela Disney e “Jeannie é um o gênio”.
Mulheres de Argel, Eugene Delacroix
            Estas observações nos são importantes por permitirem a reflexão acerca da maneira como hoje cerca de três séculos após a tradução de As mil e uma noites, esta maneira de representar o Oriente se faz presente em nossa cultura. Por mais claro que seja a nós a inexistência de tapetes voadores, gênios e mulheres que se tornam gazelas, tais elementos somados ao todo da obra, contribuem na representação de um mundo oriental exótico e pautado por extremos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário