terça-feira, 15 de janeiro de 2013

"A Flecha de Deus": o imperialismo sob o olhar dos africanos

    Último romance de uma trilogia que se propôs a pensar a dominação das nações europeias sobre a África, "A Flecha de Deus" publicado em 1964 de Chinua Achebe, corresponde para a literatura africana de língua inglesa uma renovação conceitual. Tomando como contexto os primeiros anos do século XX, período marcado pela consolidação da presença inglesa na Nigéria, tendo em vista o estabelecimento do protetorado britânico na região, Achebe representou este contato sob a ótica não dos europeus, mas dos próprios africanos.
     O narrador de "A flecha de Deus" é onisciente e nos conta sob a perspectiva dos povos igbo a história de Umuaro. Alberto da Costa e Silva e o relato de Equiano, nos mostram que os povos igbo correspondem a uma etnia africana que se localizou ao sudeste da Nigéria. Estes povos não chegaram a constituir um Estado centralizado, como foi o caso de muitos outros povos africanos, mas respondiam indiretamente ao reino de Benim. Trazendo estas informações para a narrativa podemos notar que Umuaro é uma tribo composta por seis aldeias, deste modo cada uma destas aldeias possui estruturas de poder muito particulares, mas se assemelham de maneira geral pelos costumes e pela adoração ao deus Ulu.
    A organização política dos igbo esteve pautada pela divisão hierárquica e patriarcal por meio de associações de titulados e de grupos de idade. Os títulos eram extremamente almejados nesta sociedade, e eram conseguidos à medida em que o indivíduo prosperava. A prosperidade era medida entre outras coisas, pela riqueza de um homem, tendo em vista o sucesso de suas colheitas, a quantidade de inhames armazenados  em seus celeiros, bem como pelo seu número de mulheres e filhos. A posse de um título garantia ao indivíduo o respeito dos demais e o poder de fala perante os outros homens da aldeia, fato que o romance revela à medida do desenrolar da narrativa.
      Além de revelar aspectos referentes à cultura e organização dos igbo, o romance tem por objetivo representar uma ótica sobre a dominação imperialista na região, deste modo os primeiros capítulos de "A Flecha de Deus" narram o conflito entre Umuaro e a tribo vizinha, Okperi. A briga entre as duas tribos teve origem em uma disputa por terra, a tradição religiosa das tribos, no entanto mostrava que Umuaro não devia ir à luta contra sua irmã, pois havia sido ela a tribo a ceder seus deuses para a fundação de Umuaro. Assim, Ezeulu sumo sacerdote da tribo mostrou-se desfavorável a qualquer incitação de luta contra Okperi.    
    Apesar das recomendações de seu sacerdote, Umuaro vai a luta contra Okperi, o conflito será intermediado pelas milícias do capitão Winterbotton chefe do distrito de Governament Hill instalado na região. Nesta ação, o capitão julgou Umuaro culpada e destruiu suas armas. A intervenção de Winterbottom pode ser pensada para ilustrar as diversas formas em que se deu a dominação imperialista no continente, muitas vezes se valendo de conflitos étnicos como instrumento de dominação colonial. 
     Eric Hobsbawm em seu trabalho A Era dos Impérios nos mostra que a ação dos missionários pode ser compreendida como um agente do sucesso da empresa colonizadora, todavia, não como um instrumento da política imperialista, pois não raro missionários impuseram-se contra abusos da administração colonial. A religião, no entanto apesar de pregar a igualdade das almas perante Deus, reforçava a desigualdade da carne por não ir contra teorias racistas, e do contrário, reforçava-as na medida em que aceitava para si a tutela de cuidar e civilizar os povos africanos. Neste sentido o romance ao abordar a relação existente entre a tribo de Umuaro e a atividade missionária do Sr. Goodcontry e o consequente conflito resultante desta relação, nos traz informações que podem ser confrontadas às observações presentes no trabalho de Hobsbawm. 
    Apesar da preocupação do protagonista Ezeulu, em manter as tradições da tribo, à medida em que a influência britânica aumenta na região, o sacerdote vê a necessidade de estabelecer entre os igbo e o dominador britânico uma relação amistosa. Sua posição pode ser conferida na forma como se relaciona com a administração do distrito de Governament Hill, bem como na forma como lida com Sr. Goodcontry. Ezeulu entende que seu povo estava   naquele momento vivendo algo novo, e que a maneira de manter suas tradições e resguardar-se, era ampliar o seu conhecimento sobre o homem branco, assim promete ao missionário enviar seu filho Oduche para aprender a "nova religião". A inicial relutância de Oduche aos poucos se transforma em curiosidade e interesse, pela língua e pelo novo culto. Aos poucos os ensinamentos do Sr. Goodcontry começam a surtir efeito sobre o personagem que em prova à sua fé, mata uma jibóia, animal considerado sagrado pela tribo.
       Da pregação de Goodcontry ao sacrifício da jibóia realizado pelo filho do sumo sacerdote de Ulu, podemos perceber que a ação desempenhada pela atividade missionária na região, corroborou para o surgimento de questionamentos à antigas tradições, como utilizou-se destes questionamentos para assentar-se. É preciso, no entanto compreender os igbo, personagens dessa trama como seres ativos e, portanto os questionamentos suscitados a partir deste contato, podem ser compreendidos até mesmo como anseios já existentes. A nova religião, no entanto na medida em que colaborou para a criação de um ambiente de tensão, como nos mostra o romance, entre Ezeulu e a tribo que se negará em acompanhá-lo até a reunião convocada por Winterbotton; auxiliou para a consolidação da dominação britânica. 

Vera Lúcia Guedes Barbosa - Graduanda em História pela Universidade Federal de São Paulo

Referências Bibliográficas:
ACHEBE, Chinua. A flecha de Deus. Trad. Vera Queiroz da Costa e Silva. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HOBSBAWM, Eric. A era dos Impérios IN: A era dos Impérios: 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
NUNES, Alyxandra G. Things fall apart de Chinua Achebe como o romance de fundação da literatura nigeriana em língua inglesa. 28/11/2005. 143 p. Dissertação –UNICAMP, Campinas, 2005.
SILVA, Alberto da C. Igbo-Ukwu. IN: A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. 3° Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
THOMAZ, Omar REntre Lords e Kabakas: a ocupação do Protetorado de Uganda pelo Império Britânico e as imagens de um “mundo natural”. 3° Encontro de I. C. – Unicamp, 2010.
KI-ZERBO, Joseph. História geral da África I: metodologia e pré-história da África. 2 ed. Revisado. Brasília: UNESCO, 2010. 


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